Lobos, bruxas e o escuro: por que as histórias “assustadoras” fazem bem
O conto que dá arrepio também dá ferramentas. De Sendak a Bettelheim, especialistas concordam: a criança precisa de histórias com perigo de verdade.
Maurice Sendak, autor de “Onde Vivem os Monstros”, contava que sua editora considerou o livro demais para crianças — monstros, birras, um menino mandando a mãe ir fazer o quê. O livro, publicado em 1963, virou um dos mais amados e estudados da literatura infantil. A lição que ele encarna é antiga e contraintuitiva: as histórias que as crianças mais precisam não são as que escondem o escuro, são as que o atravessam.
O psicanalista Bruno Bettelheim, em “A Psicanálise dos Contos de Fadas”, dedicou um livro inteiro a essa tese. Para ele, os contos clássicos — com suas bruxas, lobos e florestas escuras — funcionavam como um teatro seguro dos medos reais da infância: a separação, o abandono, a fome, a maldade. A criança que ouve o Joãozinho vencer a bruxa não fica traumatizada; ensaia, em ficção, a própria vitória sobre os próprios medos.
O detalhe técnico que torna o conto seguro é a sua arquitetura: o perigo existe, mas é contido, simbólico e vencível. O lobo é mau — e cai na panela. A distância entre a história e a vida é exatamente o espaço onde a criança administra a emoção sem ser engolida por ela. É essa dose controlada de medo, acompanhada da garantia de desenlace, que produz o efeito formador.
A literatura brasileira conhece bem essa dieta: Monteiro Lobato enchia suas histórias de perigos — o Saci na floresta, a Cuca no mato — e autores como Ruth Rocha e Ana Maria Machado continuaram a tradição com personagens que enfrentam medos mundanos: o escuro do quarto, o primeiro dia de escola, o irmão novo. O Brasil infantil, em seus melhores textos, nunca subestimou a inteligência emocional da criança.
Há um ganho literário no mesmo pacote: histórias sem conflito, sem perigo e sem vilão costumam ser, simplesmente, sem graça. O perigo é o motor do enredo — sem ele não há tensão, nem reviravolta, nem vitória que valha. A criança que só conhece histórias lisas aprende a esperar pouco da leitura; a que conhece histórias com espinhos aprende que os livros podem segurar a respiração — e é essa sensação que a faz voltar.
Na prática, a escolha do adulto é de dose e contexto: conhecer o que a criança assusta agora (e muda por fase), preferir histórias em que o medo é enfrentado e vencido, ler junto nas primeiras vezes — a presença do adulto é o selo de segurança que permite mergulhar — e respeitar o pedido de “outra história”. O objetivo de fundo é o que Sendak defendia até o fim: respeitar a criança como pessoa completa, com sombras incluídas. As histórias com lobo não ensinam a criança a ter medo — ela já tem. Elas ensinam que o medo se atravessa, e que do outro lado sempre tem alguém esperando com um abraço.